Interações entre os medicamentos e alimentos/nutrientes das dietas em pacientes hospitalizados

Por Tatiane Alves

Os dados foram coletados nas unidades assistenciais do Hospital Regional Justino Luz (HRJL), um hospital secundário de referência mantido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Picos, Piauí, com 120 leitos, que também realiza atendimentos de emergência, no período de Agosto de 2009 a Janeiro de 2010.

A coleta dos dados foi realizada por meio de consulta direta aos prontuários pelos acadêmicos do Curso de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí, treinados sob supervisão. Durante essas consultas, um questionário padronizado e validado foi preenchido para se obter as seguintes informações: idade, cor da pele autorreferida, problemas de saúde, hipóteses diagnósticas, medicamentos administrados e as dietas prescritas.


60 pacientes foram acompanhados, sendo que 88,3% tinham faixa etária superior a 41 anos e 11,7% entre 15 a 40 anos, respectivamente. Em relação à cor da pele, 88,4% da cor parda, 8,3% negra e 3,3% branca, respectivamente.


Verificou-se que 25% dos pacientes eram tabagistas e que o principal motivo das suas admissões hospitalares foi a hipertensão arterial sistêmica (22%). Dentre outros motivos que resultaram em internações puderam-se destacar: ferimentos em membros inferiores esquerdos, úlcera gástrica, gastrite, apneia, cirrose hepática, infecção intestinal, acidente vascular cerebral, febre, queimadura, pneumonia, dor abdominal, trombose, problemas renais e diarréia.


A média de medicamentos prescritos aos pacientes internados no HRJL e acompanhados no estudo foi de 1,36. O número de medicamentos administrados foi de 25 no período da manhã, 29 no período da tarde, 21 no período da noite e 7 no período da madrugada, totalizando 82 medicamentos prescritos.


Dos 82 medicamentos prescritos, em todos os períodos, havia 16 (19,5%) com possível interação com a alimentação, totalizando 60 possíveis interações entre nutriente/alimentos e medicamentos. Dessa forma, foram identificadas 18 (30%) com captopril, 10 (17%) com ácido acetilsalicílico e 8 (13%) com espironolactona, respectivamente, representando as maiores freqüências de possíveis interações entre as classes farmacológicas investigadas.


Detectou-se também que do total das possíveis interações entre alimentos/nutrientes e medicamentos, 32 (53%) corresponderam a possíveis interações com drogas cardiovasculares; 13 (22%) com fármacos anti-inflamatórios, 11 (18%) com agentes diuréticos e 4 (7%) com fármacos que atuam sobre o trato digestório. Segue abaixo a tabela com as possíveis interações:




Os pacientes internados no HRJL recebem alimentação e medicação adequada a cada caso. No entanto, como há uma grande demanda de pacientes e o atendimento é padronizado, em sua grande maioria não se levam em conta as possíveis interações que possam existir entre a dieta servida e os medicamentos administrados.(4,9) Essas possíveis interações dos medicamentos com a alimentação dos pacientes podem levar ao prejuízo da ação do medicamento e/ou alimento, acarretando um aumento na utilização dos fármacos cronicamente e a desnutrição, com agravamento do quadro clínico dos pacientes.

O consumo de alimentos com medicamentos pode ter efeito marcante sobre a velocidade e extensão de sua absorção. As administrações de medicamentos com as refeições, segundo aqueles que a recomendam, o fazem por três razões fundamentais: possibilidade de aumento da sua absorção; redução do efeito irritante de alguns fármacos sobre a mucosa gastrintestinal; e uso como auxiliar no cumprimento da terapia, associando sua ingestão com uma atividade relativamente fixa, como as principais refeições.

Alguns medicamentos, recomenda- se ser administrado uma hora antes ou duas horas após as refeições.(11,14)

Os resultados revelaram um número importante de possíveis interações entre alimentos/nutrientes e fármacos durante o tratamento clínico dos pacientes, podendo levar a má absorção, desnutrição e a excreção de vários nutrientes e revelam a importância de médicos, farmacêuticos, enfermeiros e nutricionistas trabalharem em conjunto e contribuir de forma satisfatória para melhores resultados.

Referências:

4. Gomez R, Venturini CD. Interação entre alimentos e medicamentos. Porto Alegre: Letra e Vida; 2009.

9. Gil Esparza AM. Interacciones alimento-medicamento y autocuidado. Alimentaria. 1997;35(282):19-25.

11. Moura MR, Reyes FG. Interação fármaco-nutriente: uma revisão. Rev Nutr; 2002;15(2):223-38.

14. Kirk JK. Significant drug-nutrient interactions. Am Fam Physician. 1955;51(5):1175-82.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conhecendo a fase farmacocinética

Administração de fármacos em idosos